14/10/2008

Fim da vida chiclete

Cena:

Dou a passagem para o trocador do ônibus, que libera a catraca. Minha bolsa fica presa e não consigo passar. A roleta trava e eu ainda não a atravessei. O homem furioso começa a gritar para o motorista parar que eu teria que entrar pela porta de trás, o que significava descer no meio da avenida movimentada. Ele bufa, faz caretas, reclama, olha para os demais passageiros. Eu, tranqüila, serena, plácida, sorrio, pego o troco que está na minha mão e lhe dou outra passagem. Ele recusa e continua a gritar que tenho que descer. Pisco o olho e digo que não precisa. Dou-lhe o dinheiro. Ele libera a catraca sem jeito com minha solução. Eu sento calmamente, abro o jornal e começo a ler. Sinto que todos ainda me olham. O que realmente significa 2,10 quando só queremos começar o dia bem, em paz?

Ficar me punindo porque não consegui passar? De jeito nenhum, foi uma questão de descompasso de movimento. Só isso. Não sou nenhuma torturadora. Se eu não posso ser compreensiva comigo, vou buscar isso em quem? Se não sou eu que me amo, vou esperar de quem? Não posso evitar os erros. Mas, está nas minhas mãos a reação para eles. As tempestades nos meus copos de água
viraram chuvas cada vez mais finas.

Mas, nem sempre foi assim. Na verdade, de uma semana para cá.

Eu era uma mesa com uma perna menor, se encostar virava. Virava braba, virava ignorante, virava amarga. Cheguei ao ponto do colapso. Foi a hora da montanha russa descer. Primeiro em queda livre: lágrimas, desabafos, agonia. Já no vale, veio a hora de buscar o equílibrio. O que me faltava não era amor próprio. Mas, atos de amor. Batemos as metas da empresa, safamos a cara de nossos amigos resolvendo seus problemas, viramos a Madre Teresa para os familiares e esquecemos aquela carcaça que chamamos de eu. Pára o mundo agora!


O trabalho não acaba. Mesmo que as férias demorem, quando chega, não é infinita. Os problemas não terminam nunca. Ainda que os fins de semana custem 5 dias, eles findam. Por isso, é agora o momento para tudo. Ouvir aquela música, cuidar da unha do dedão que descascou o esmalte, fazer compras loucas, mudar o visual. Essa é a hora de dizer não para o estresse.

Essa semana tive um baita problema para resolver. Enquanto uma outra pessoa na linha do telefone gritava em um ataque de fúria, eu respirava profundamente com a mão no queixo. Pensei em como ela deveria estar pressionada para ter aquela atitude tão grosseira. Imaginei-a vermelha, enlouquecida, gesticulando. Eu ali pacientemente respirando para relaxar. No fim, quando descarregou tudo, disse que não se preocupasse que eu iria resolver. Resolvi? Não. Controlar-se para não estragar o estado de espírito não significa que vai te fazer ter êxito em tudo. Se fosse assim, todos trabalhariam sobre uma esteira de palha em posição de lótus. Mas, eu mandei um e-mail para essa pessoa dizendo que há coisas que estão acima de nós e, por isso, é preciso ter paciência. Deleguei o problema a outro departamento.

Peguei minha bolsa, joguei nos ombros. Andei pelas belas ruas do bairro onde trabalho. Mãos no bolso, bota preta de cano alto e bico fino, cabelo escovado, unhas café, sem pressa, deslisando faceira, pés chutando o ar, no balanço gingado da carioca. A vida deve ser um chocolate derretendo no céu da boca, não um chiclete dilacerado pelos dentes.

Quando passar 100 anos ninguém vai lembrar desse dia, nem desse problema. Por isso, para que se desesperar se as coisas se apagarão? Agora, eu estou me amando muito. Torrei o salário de mês em cremes, xampus caros, cremes de massagem, de limpeza, maquiagem. Não estupro mais minha mente quando estou cansada. Ler tem que ser por prazer. Estudar, por necessidade real.

Não quero ser uma grande chama. Só uma vela que tremula com o vento, mas não deixa de iluminar, serena. Posso não atingir isso sempre. A diferença é que agora eu busco.

Li Mendi

2 comentários:

H. Viana disse...

Oi nega, você passou lá no meu blog, obrigada pela visita.

Agora, sobre o texto, parabens, ainda não consegui chegar nesse estagio, um dia eu consigo. Na verdade, na situação do telefone, eu ri, imaginando a cena, vc com o mão no queixo.
Parabens, beeijos! rs

Gisele Trímboli disse...

Olááá!!!! Estou aqui para te parabenizar pelo seu blog, achei de muito bom gosto, adorei o visual! Por isso estou deixando um presentinho para você lá no meu blog! Espero que goste! Gisele.