05/08/2008

Vida eclipsada

Como você corre, seu moço¹. Corre para aquele papel na mesa que falta assinar, corre para pegar o elevador que se abre, corre para ler a primeira página do jornal. Não dá tempo para tudo. Para olhar pela janela aquele ipê, levantar o rosto e ver que estrelas nascem e morrem. Sua agenda importante fica cheia, mas, nela não precisa escrever o que o coração não esquece. Anotamos as coisas porque elas não estão de cor... Aquele vinho, o pé descalço fora do sapato, o silêncio da casa, a boa comida, a cama aconchegante, nada disso precisa da agenda 2008.

As pessoas te admiram, querem ouvir suas lições, visões e aprenderem algo novo. Mas, tem vezes que a vontade é mesmo ficar escondidinho, naquela camiseta velha, jogado no sofá, normal. É difícil ser normal quando esperam de nós. Simplesmente há dias que não amanhecemos gênio, queremos ficar quietos com nossa xícara de café. Só que o mundo tem tanta sede. Ele está desorientado.

Quando os físicos do renascimento começaram a desvendar os mitos e formular as teorias, tudo ficou mais fácil. Os livros sagrados foram traduzidos, as leis dos homens e dos deuses regularizadas para cada um seguir. Só que hoje, tudo é volátil. O remédio que salva, anos depois, é suspenso porque mata. Adão e Eva não são mais críveis, nem as leis físicas, imutáveis. O homem está perdido, imerso na falta de certezas. O mundo pós-moderno nos pede para ser Super-Homens, como anunciou Nietzsche. Super galãs, super malhados, super-mulheres CEO! Onde fica a nossa humanidade nos tempos da robótica?

Eles fabricam para nós tênis "supersônicos" e trabalhamos 24 horas para comprá-los sem nem pensar na mais valia que ele insurge. Tudo isso nos afasta dos pés molhados na areia, sentindo a onda vir e acariciar bem ligeira, mansa e espulmante. Não há tempo para parar. Como a gente corre, seu moço.

Só há espaço para os super inteligentes, super eficientes, super stars. Mas, dá uma vontade de pegar o carro, subir a serra e ficar lá quieto, sob a copa de uma árvore, em um banquinho, sentado, trocando qualquer devaneio. É a melhor forma de recarregar as baterias. Mas, é preciso folhear a agenda, ver onde isso se encaixa para não atrapalhar aquela viagem, aquela entrevista, aquela vida besta sô...

Um bom ano (2006) não é um grande filme. Mas, posso ver Russell Crowe próximo ao vinhedo, olhando a fazenda do tio que agora é sua. Ele recebe um telefonema de um colega de trabalho que lhe informa que pegou seu lugar de executivo na bolsa de valores. Ele continua fitando a paisagem, abaixa a cabeça e sorri. O homem do outro lado da linha diz que ele está perdendo muito. Mas, o personagem desliga, se levanta e vai sentar-se em uma mesa ao ar livre. Pega sua taça de vinho e sente que se encontrou. Tão tarde, mas, se encontrou. E não precisa explicar isso a ninguém.

Claudete Lima, um grande nome de pesquisa de Opinião Pública no Brasil, sentou comigo uma vez para conversar. Ficamos só nós duas falando da vida. Ela me falou, olhando o longe: "Depois dos 50 é que a gente aproveita a vida. Aprendemos a não nos abalar com coisas não importantes. É o auge". Fiquei imaginando como seria aquela deliciosa sensação enquanto tudo me inquieta, aflinge e parece um monstro do armário.

Sinto que sou um eclipse. Ora o mundo se impõe como uma zona de sombra à minha frente, ora sou eu que reluzo intensa e incomodo.

Não corra tanto, seu moço, a vida não vai postegar a última batida do ponteiro.

Nota 1: À um amigo.

Li Mendi

Fonte= Imagem

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