25/07/2008

Garoto propaganda

Os modelos de propaganda de dia dos pais são tão bonitos que fazem até lembrar que lá em casa tem sabonete... (Lavou está limpo, para quem não pegou a piada). Mas, não parecem com os pais das minhas amigas. Aqueles tios barrigudos e de bigode que pegavam a gente nas festas. A diferença tem um motivo claro: a gente (digo nós, publicitários) escolhemos os atores para vender e não para “serem” pais. Essa missão demanda muito mais abnegação!

Semana passada, no programa Lavanderia do canal MTV, uma moça reclamava do pai do seu filho que jogava vídeo-game o dia inteiro e não lhe dava atenção. Reclamou que ele não lavava louça, nem nunca trocara uma fralda. Mas, vejam que sentado na poltrona de vilão estava um gatinho de 19 anos perfeito para qualquer comercial de televisão, mas, não, para ser pai. Os papéis estavam trocados!

No convívio diário, a gente descobre um outro homem ao nosso lado: para amar mais ou para se decepcionar totalmente. Ele larga as roupas pela casa, esquece de apagar a luz, de fechar a porta do guarda-roupa, ronca, se coça, toma o sofá todo, arrota e não faz bombom de licor no banheiro. Mas, pega as compras para carregar, aparece de repente com uma bandeja de café da manhã, leva para um almoço surpresa, fica horas conversando sobre todos os assuntos variados, dirige milhas para chegar no destino daquela viagem planejada e dorme abraçadinho. Se perceber, nesse ínterim, não citei nenhuma referência a beleza, isso porque ela se torna uma qualidade terciária. Enquanto no “ficar” a cor dos olhos e os gominhos da barriga são os pontos de partida da escolha, na relação a dois, eles não sustentam.

As moderninhas resolvem fazer o sexo segura. Segura ficante, segura namorado... segura até marido dos outros... Elas acabam errando o passe no meio do “jogo” e se vêem com uma criança nos braços. A partir daí, começam a exigir atenção do gatinho na poltrona com joistick.
Antes de ontem, uma equipe da Globo estava gravando a novela Favorita na minha rua pela terceira vez. Um monte de garotas babavam pelo ator que encenava ao telefone. As fãs se acotovelavam para admirá-lo. Eu coloquei meus óculos escuros e continuei caminhando rumo ao trabalho. Na hora, refleti sobre a beleza e a fama. Senti uma deliciosa felicidade pelo meu anonimato. Andar na rua sem ninguém saber quem sou, poder respirar o ar puro e ter a paz de seguir com minha vida em privacidade. É bom também estar com alguém que seja parecido. Não há porque se preocupar com inseguranças, nem ciúmes infundados.

O alto índice de infelicidade nos relacionamentos hoje se deve a muitos homens e mulheres que escalam para o palco da vida um garoto (a) propaganda e não um companheiro (a) fiel e amigo, futuro educador e exemplo do seu filho.

Li Mendi

2 comentários:

O ANTAGONISTA disse...

Nossa... não tenho muito o que comentar, só preciso dizer que seu texto foi muito bom, um dos mais claros e maduros que li nos últimos tempos. Muito bom mesmo, parabéns!

Valeu.

aninha barreto disse...

polêmico eim Li!!! amo isso!! Mas não vou fazer um comentário grande porque vc já disse tudo!!