14/04/2008

Que papel ocupar

Estava vendo o JN quando ouvi gritos no corredor do andar do meu apartamento. Franzi a testa e me levantei, no impulso natural pela “proteção da espécie”. Alguém poderia ter se ferido. Corri para ajudar, mas parei com a mão na maçaneta. Era uma briga, na verdade. A mãe discutia aos berros com a filha, lhe dizendo que não poderia sair com tal homem, nem beber, nem se vestir com aquelas roupas... Revirei os olhos e voltei para o meu sofá. Era melhor me concentrar no telejornal. As trocas de acusações, o choro, os gritos e toda aquela tempestade do outro lado da porta começaram a me angustiar.

Uma mãe tenta colocar controle na filha de 16 anos que sai a hora que quer, chega de madrugada nas piores condições, se relaciona com quem bem entende. Isso seria um motivo para dizer: “Nem tudo é culpa dos pais”. Sou de uma geração que diz: “enquanto comer do meu pirão, vai seguir meu cinturão”. Se a mãe esquece seu papel e tenta ser “amiga que acha tudo moderno e cool”, não vai ter moral para impor as regras. A filha, em contrapartida, se acha a garota mais independente do mundo para rolar pela cama de quem bem entender e depois voltar a comer a comida da mamãe, vestir a roupa que a mamãe compra, ir a escola que a mamãe paga. Há nesta história uma mãe querendo ser jovem e uma jovem querendo ser livre. As duas presas; a primeira, a um passado de rebeldia contida (ou não) que não tem moral alguma - e nem quer ter -; e, a segunda, a uma vida desregrada, mas econômica e afetivamente ligada à mãe.

Sou da opinião que se quer fugir às regras, pegue suas trouxas e rua. Se você não pode se bancar para ter um teto onde faz o que tem vontade, então, deve seguir o que manda o regulamento de cada família. Não tive uma mãe boazinha, amiguinha. Era hora para sair, para chegar, bilhetes na geladeira com o endereço para onde eu iria e o contato para ligar e muitos telefonemas de celular para “tranqüilizar”. Esse controle metódico não foi fácil de suportar. Mas, hoje, me vendo uma pessoa madura, centrada, formada em duas faculdades, com uma bela carreira pela frente, com uma reputação sem manchas e um relacionamento sólido e promissor... digo: obrigada, mãe, por todas as vezes que eu senti raiva de você e me dizia que era muito bom chorar. “É melhor chorar sem dor do que com dor”.

Aprendi a ser disciplinada com meus horários e tarefas e responsável com minhas obrigações em casa, na faculdade e no trabalho. Entendi que cumprir regras faz parte da vida em sociedade e é mais fácil suportá-las quando se cresceu tendo limites. Agora que sou mais madura e sei o que quero, posso sair, viajar, dormir fora e tomar minhas decisões. Nesse momento, tenho sim uma amiga com quem converso e partilho minhas conquistas e problemas. Já me sinto pronta para ter minha vida longe de casa e não vai demorar mais alguns anos para bater asas e voar.

Tenho pena dessas duas que berram no corredor e se odeiam porque, na vida, elas não sabem que papel ocupar e, por isso, se destroem.

Fonte: Imagem

Li Mendi

2 comentários:

Aninha Barreto disse...

Caracoles!!! Disse tudo eim Li!! Eu aguentei muita tiração de sarro dos meus amigos porque tinha hora pra chegar em casa, o celular toca o tempo todo... mas aprendi a ser objetiva e aprendi a me disciplinar (não vou dizer que foi fácil, porque não foi...) mas não custa nada ligar para os pais de madrugada dizendo onde e com quem está para deixá-los mais tranquilos... se coloque no lugar dos pais... um dia também seremos e com certeza, também iremos nos preocupar... adorei o texto Li! mil bjus!!

Lucy disse...

Concordo, aninha! Li, vc disse tudo! Tb tive uma vida cheia de regras e não reclamo mais disso, apesar de ter sofrido na época. Tb creio que deve haver limites para as pessoas crescerem aprendendo a ldiar com eles e tb com frustrações. Pena q não dá pra ensinar tudo... =P

Bjoks!