03/04/2008

Menino abandonado

Era sol, meus óculos escuros abaixo do cabelo solto, pasta contra o peito, andar de quem começa o dia. Eu seguia pela calçada pensando no meu mundinho, quando ouvi um grito de uma criança. Ela corria na direção contrária, no meio da rua. Um menino gordinho, cabelo liso, com uns 10 anos chacoalhando sua mochila ainda aberta ao tentar alcançar o carro que dobrava já a esquina.

_Nãooo! Volta aqui! _ berrou e começou a chorar copiosamente.

Eu ainda estava dormindo, ou não tinha visto aquilo, segui friamente o meu caminho.

_Nãooo. _ ainda o ouvi, agora voltando para a portaria do seu prédio um pouco atrás de mim.

Parei, sai da minha redoma de vidro. Coloquei em segundo plano o fato de que o trânsito ficaria mais congestionado a cada minuto de atraso e que teria que apresentar um trabalho no primeiro tempo de aula.

_Oi. Posso te ajudar? _ caminhei até ele e pus o braço em volta do seu ombro.

_A moça que me leva todos os dias me esqueceu. Ela me esqueceu. _ chorava com a voz trêmula e andando a passos muito rápidos, parecendo com medo de mim. Alguém deve lhe ter dito para não falar com estranhos.

_Calma! Você tem empregada? Ela já chegou? _ perguntei, imaginei que seus pais já tivessem ido trabalhar.

_Não. Eu estou agora aqui fora sozinho... _ andava já quase correndo e nem me ouvia, mas eu o seguia e insistia em fazer perguntas para tentar achar um modo de ajudá-lo.

_Você tem o telefone dessa moça? Eu posso ligar para ela.

_Não. _ continuava de costas para mim.

Um dos porteiros de um prédio recolheu as coisas dele que ficaram jogadas no meio da rua. Agradeci-lhe, como se fosse a responsável pelo menino e o acompanhei até onde morava. Eu o deixei na companhia do porteiro e vizinhos que se prontificaram a resolver sua questão. Disse-lhe que iria embora e que ficasse bem. Só aí, depois de ouvir o agradecimento de outras pessoas, ele, no automático, se dirigiu a mim: “obrigado”.

Ali estava uma célula defeituosa da nossa sociedade. Inevitavelmente o comparei ao meu irmão, que no lugar dele diria: “Não foi culpa minha não ter ido a aula, então, vou me jogar de uniforme e tudo dentro da piscina e ficar brincando até meus pais chegarem”. Ou até mesmo iria pegar um ônibus e se virar para chegar à escola.

Os jovens estão sendo criados nos bairros com melhor poder aquisitivo como se fossem corpos sociais jamais colocados em contato com pequenos antígenos para produzirem reações à certos problemas. Simplesmente, são protegidos por câmeras, carros, grades, seguranças e todo um aparato que o fazem se sentir “abandonados”.

E há outra reação muito tênue e sutil no comportamento do garoto. Ele em nenhum momento me respondeu olhando nos olhos, sempre andando rápido e fugindo de mim. Crianças assim são criadas para só falarem com quem é do seu ciclo socialmente seguro, o que, às vezes, passa pelo “economicamente iguais”...

Impossível não comparar com meu irmão outra vez. Os porteiros do meu prédio o adoram, pois, ao esperar sua van todos os dias, fica ali falando de futebol, da vida, jogando conversa fora. Ele conseguiu cativar todos os funcionários com menos de 2 meses que chegamos aqui.

Esse assunto tem muito a ver com o post abaixo sobre a Era dos Peter Pans. Um comentário de uma leitora do blog me chamou atenção e me deu esperança:

_“Terminei o colégio ano passado e passei pra faculdade de administração, que começa em agosto, mas não estou de férias... Estou estudando muito pra EEAR, concurso que faço em junho! Meus pais, acham que eu estou indo muito rápido em relação ao meu futuro, tenho 17 anos e já estou entrando na faculdade e me preparando pra sair de casa e enfrentar a vida militar...

Sabe, eu tenho pressa, pressa de definir a minha vida, ter o meu sustento, meu cantinho, minha profissão, detesto estar dependendo dos meus pais pra tudo, mas eles acham que por eu ser mulher, posso morar com eles até tarde!

Fico muitas vezes pensativa com relação aos jovens de hoje, eu to aqui batalhando pra ter a minha liberdade(com responsabilidade, é claro!) e eles por aí, as custas dos pais, sem a mínima preocupação quanto a isso... O que me conforta é saber que existam pessoas, que assim como nós...”


É Taísa, assim como você, estou nesta sintonia também. Não podemos mudar o mundo, mas o nosso é nosso e fazemos dele o que quiser.

3 comentários:

Dri disse...

Oi! Já tá lá o resto do texto... rs
Beijoca!!!

taíza_better disse...

Oiee meninas \o/
Realmente, mudar o mundo agnt naum pode neh Li, mas quem sabe fazendo a nossa parte as pessoas à nossa volta naum se tocam e começam a fazer a parte delas?!
Isso me lembra uma história q minha mãe me contava kuando eu era pequena, do incêndio na floresta, todos os bixos estavam paradados olhando o fogo acabar cm a floresta mas aí, um passarnho bem pequeno chamou a atenção de todos, pq ele ia ateh o lago enxia o pequeno biquinho de água, voltava e largava no fogo da floresta.Aí um elefente disse a ele, q estava maluko, q ele jamais ia conseguir apagar todo akele incêndio da floresta... O pássaro olhou pra ele e disse, pelo menos estou fazendo a minha parte!!!
Bjoks Florzinhas,
um ótimo final de semana pra todas!!!

Lucy disse...

Quando vc falou que o menino nao te respondia olhando nos olhos e fugia, projetei isso para ele como um adolescente que não fala com os outros que sejam diferentes dele (como os nerds ou os especiais) por ter medo ou não saber como conviver com eles. E um adulto que não sabe lidar com colegas homossexuais ou pessoas de outras raças. E finalmente um idoso que ensina aos filhos e netos a mesmo modo de vida... é um círculo vicioso.

Quero quebrar os paradigmas como a Taísa: ser diferente com responsabildiade. Podendo assumir compromissos (de qualquer espécie) contando com meus próprios esforços. Ainda não consegui isso, mas pelo menos não estou sentada, esperando a vida passar. ;)

Bjus e abraços, queridas!!!