09/04/2008

Cenas da vida cotidiana
Você é o que você come, o que veste, o que gosta, onde vive?

Assim como os planos e sólidos podem ser colocados dentro de fórmulas geométricas e quase tudo que há no mundo discricionado em moléculas e reações químico-físicas, a todo instante existe alguém querendo enquadrar a nossa subjetividade dentro de um rótulo. É muito mais fácil conviver com as pessoas que se pode julgar a fim de colocá-las em seu devido lugar: o gordo no canto da festa, a sem estilo longe das lojas de grife, a pobre no elevador de serviço...

Semana passada uma pessoa me disse, irritada e indignada:

_Você muda de idéia muito rápido! É um absurdo isso.

Mas, na vida, eu não mudo de idéia por capricho, para mostrar que sou forte ou chamar a atenção das pessoas. Adapto-me às novas realidades, construindo outras estratégias para enfrentar as atuais circunstâncias. Consigo lidar com as alterações do contexto tão rápido (e ainda sendo feliz!), que acabo incomodando quem tem uma concepção formada e única da vida em uma linha absolutamente reta. O meu mapa não é cheio de setas vermelhas por onde seguir. Pelo contrário, é tão cheio de linhas, indicações e “x” de dezenas de cores que nem se pode chamar de “roteiro de vida”. Se tinha programado ser jornalista e agora me cobram por isso, lamento, mas não quis ficar naquela parada e segui viagem! Se havia me conformado em ser autônoma e problemas exteriores a mim dificultaram, desculpe, mas eu vou virar para a esquerda e enveredar pela minha nova área de publicidade. Se eu tinha regulamentado que cavaria uma raiz em uma cidade e agora estou pensando em me mudar daqui uns anos, sorry, eu fui criada como um ser caminhante e não uma árvore! E já estou pensando em me especializar em Marketing, se preparem os que vão se desapontar.

Perspicaz como sou percebo que o problema das minhas mudanças para quem convive comigo não é a alternância de desejos e planos. É o fato de que, quando eu quero uma coisa, quero muito e consigo convencer a todos que essa é a melhor coisa a se fazer. Ao mudar, acabo desapontando os que acreditaram em mim. Pode soar quase como uma perversidade, não fosse a vida uma planície sem riscos para se seguir com a própria história. A minha quis Deus que fosse uma zona irregular e cheia de acidentes geográficos.

Ontem, peguei um ônibus errado. A linha tem três destinos que levam a mesma numeração. Dois deles passam por onde eu quero e um pára em um ponto final no meio do caminho. Por pressa, ou cansaço mesmo, não observei direito e acabei pegando o que só me levava a parte do destino. Perguntei ao motorista o que fazer. Aí, ele me explicou que eu deveria ter pego os outros dois tipos de veículos daquela linha, mas não era para me preocupar porque ali mesmo eles iriam passar. Fiquei esperando, mas antes que isso acontecesse, o próprio motorista e a cobradora me chamaram da janela do ônibus. Olhei para o lado.

_Esse vai sair agora, se quiser, vem. Agora ele vai passar lá.

Um novo motorista estava no volante e outra cobradora no seu posto. Os dois anteriores se sentaram no fundo do veículo. Eu perguntei aos que conhecia se tinha como pedir para eu entrar por trás. É normal no lugar onde eu morava quando alguém pegava um ônibus errado entrar em outro da mesma empresa. Assim, eles intercederam por mim.

_Ela queria ir para o lugar X e pegou o ônibus destino Y? _ o motorista deu uma gargalhada e falou baixinho para os colegas balançando a cabeça: _ Que idiota.

_Tudo bem, eu pago a passagem... _ dei o dinheiro à trocadora e sentei sozinha junto a janela. Antes, agradeci aqueles que haviam feito o pedido.

Os dois, motorista e cobradora novos, ainda sorriam o sorriso dos superiores. Coloquei a cabeça para trás no encosto e respirei fundo. Reparei que a mulher a minha frente tinha a calça toda remendada atrás, o cabelo mal tratado e cara de cansaço. O motorista comia uma coxinha de galinha enquanto dirigia, deveria ser seu almoço. Eles precisavam de alguém para ser o idiota para eles e fazer a vida menos dura.

Fechei os olhos e voltei a refletir nas minhas mudanças. Agora já faz 9 meses, posso contar um episódio que remonta o quanto eu fui uma metamorfose. No dia da minha formatura houve aquela cena básica do orador ler o que um amigo seu escreveu sobre você. Eu esperava tudo, menos o que ouvi: “Ela só gosta de estudar, é muito quieta, calada e quer ser a Fátima Bernardes...”. Ao chamarem meu nome quis continuar sentada. Aquela não era mais eu. Meus amigos franziram a testa e, quando voltei com o canudo, se irritaram: “Quem escreveu isso de você?”. Ficamos todos brevíssimos.

Eu era assim no ciclo básico (onde os alunos de todas as habilitações: jornalismo, publicidade, rádio e tv, teatro e produção editorial estudam juntos em duas turmas A e B até o 3º semestre.) Era uma garota cheia de medo, que sentava na última carteira, não falava em público, não reclamava de nada, não saia de casa. A que se formava não aprovava a linha editoria do JN, muito menos era fã da Fátima Bernardes – bem como todos os alunos de jornalismo em consenso!-. A que se formava adorava sair para dançar, falava como ninguém diante da turma sobre qualquer tema, já nem ligava em matar aula, ou estudar pouco para uma prova e batia boca com qualquer um que ousasse pisar no seu dedo do pé.

_Hei! Parabéns! Ah! Você viu o que escrevi sobre você? _ disse uma amiga patricinha que tive no ciclo básico.

Na hora, não consegui dizer nada. Estava completamente triste, aborrecida e indignada com ela. Mas, depois refleti que ao mudarmos de turma, ela não conhecia a pessoa que cresceu. Não era justo só por ter sido da comissão de formatura terem lido sua descrição para um teatro lotado de mais de 2 mil pessoas. Eu ainda lembro da professora paraninfa me dizendo no ouvido ao me cumprimentar: “Você pode ser melhor que a Fátima Bernardes”. Isso era um cuspe na cara, um selo de grande idiota-alienada na testa. Pior! Eu sabia que não era o que eu pensava, mas sim a narrativa que tinham feito sobre mim.

Foi, então, que movida pela fúria fiz um texto ácido e felino. O mesmo veneno que cura mata. Mas, se o preço do fim da amizade era eu dizer por e-mail o que estava entalado na garganta, eu diria. E disse com todas as letras: “Você acha que eu ainda sou aquela patética sem graça e sem estilo do fundão, mas eu mudei! Você não tinha o direito de escrever sobre mim e roubar a chance dos meus amigos atuais de falarem quem sou. Você me fez passar um papel ridículo diante dos meus parentes e dos representantes da Academia! Eu não sou mais aquela apática que tanto você reclamava que não lutava por seus direitos, aquela está morta e não existe mais! Eu tenho que te dizer: odiei o que escreveu”.

Ela também odiou o que escrevi e penso se talvez fosse melhor tudo ter terminado naquele “obrigada” do dia. Só que eu estava com um nó na garganta tão grande!Para aquela patricinha eu era alguém a quem ela podia olhar com pena e inferioridade. Não posso negar, éramos amigas sim. Mas eu não ia dormir se não dissesse o que pensava.

Eu não sou um ser humano bom. Não tentem me amar por isso. Eu tenho sim um lado ruim. Eu falo mesmo que machuque, eu não aceito mais desculpinhas esfarrapadas, eu não tolero nem confio mais na classe masculina como antes. Eu não topo ser boazinha.

Eu não sou uma só, sou várias querendo muitas coisas, mas com uma única subjetividade, então, nesse quesito quem sabe sou singular.

Li Mendi

Um comentário:

Laila disse...

Nossa.


Que infinidade de lembranças me vieram. Acho que a maioria das pessoas já deve ter passado por isso, mas nem todo mundo teve a sua coragem.
Parabéns.