31/03/2008

Filhinhos de papai na Era dos Peter Pans


_ Uma garota de 14 anos saiu com o carro do pai e, por não ter prática ao dirigir, esmagou uma velhinha no portão. // _ E você viu aquela que ganhou uma moto no dia do aniversário de 15 anos e se acidentou, vindo a falecer? // _ E o garoto de 12 anos que dirigia o carro porque o pai estava bêbado...?

Quando uma pessoa começa, outras continuam a enumeração e parece que não vai ter fim o repertório de tragédias. Há nessas histórias um ponto em comum: o despreparo dos jovens que ganham um status social de pseudo-adultos e não agüentam o peso da responsabilidade que vem acoplada.

Aqui mesmo no prédio, olho pela janela e vejo um rapaz lustrando seu Civic ali na garagem. Posa de todo poderoso, quando, na realidade, é um Zé Ninguém. Veja que grotesco: os filhos reclamam que os pais não dão liberdade, mas usufruem de tudo que é ironicamente dos seus “repressores”. Querem mostrar que são modernos e independentes, sem deixar de vampirizar um lugar na sociedade de maneira artificial. “Eu tenho Civic, eu tenho tênis de marca, eu tenho celular que fala até com Deus em tempo real, eu...”, “Você nada ôh, fanfarrão, seu pai!”.

Para fechar a moldura deste quadro, as Barbies- cérebro de azeitona- barriga de aço se deslumbram com os carinhas que não passam de uma figura postiça paterna. Não é diferente o inverso. Conheço várias patricinhas que usam o crachá de estagiárias de grandes empresas e se vestem como executivas chefes, mas a remuneração não dá nem para as roupas de grife que usam. Resultado? Papai banca o carro, banca o almoço, banca sua imagem de bem sucedidas. Algumas realmente serão mulheres poderosas, porém uma grande massa terá vocação para casca de amêndoa.

Isso não é o meu caso, não sou rico (a) que vive de aparência! – foi isso que seu cérebro emitiu repetidas vezes nas linhas acima? Será realmente que eu (você!) viveríamos completamente independentes se nossos pais fossem morar em outro país? (Não usei a possibilidade da morte para não ser drástica). -Gosto de dialogar aqui, porque sei que as leitoras tem idades próximas e vivem conflitos semelhantes-.

Não é para chorar com sua história triste! Hei! Estou só refletindo como chega uma hora em que temos que partir para a luta e construirmos a nossa verdadeira posição, com méritos próprios. Assim, atingir a independência de pagar o que come e vestir o que pode constar no seu cartão de crédito. Isso demanda tanta energia e abdicações que estamos em uma Era dos Peter Pan, na qual os adultos pretendem esticar a adolescência até os 30, na casa da Mãe. A conseqüência disso são várias: estudantes profissionais que nunca trabalharam (nem pretendem) e só fazem cursos eternos, homens “enrolões” nos relacionamentos (vide post anterior!), falta de perspectivas e foco nas suas metas econômicas e profissionais etc.

“Arrisque-se”, eis o novo grito de ordem. Arrisque-se e experimente o novo refrigerante, a montanha russa, o cigarro X, a cerveja Y... Mas, o risco está sempre na ordem do consumo de idéias e bens. Na hora de arriscar a posição social (mesmo que sendo atrelada ao que os pais oferecem), aí a tartaruga põe a cabeça para dentro do casco.

O Estilo Ploc de viver não está apenas no look das meninas-mulheres de 40 com bolsas coloridas e roupas de boneca. É uma marca cultural dos modernos, “de última geração”, silenciosamente bancados pelos “chatos pais cobradores”.

Antes, era uma questão de honra o rapaz sair de casa aos 20, fazer sua família e mostrar que pode se custear. Hoje, os próprios pais acham que maturidade é quantos diplomas os filhos colocam na gaveta, com tanto que durmam em casa. Essa visão é ruim para o nosso país. Há vários outros exemplos lá fora de uma educação voltada para esfregar a realidade na cara dos jovens aos 18, assim que ele põe o pé na universidade e precisa se bancar no alojamento. Por que será que são nesses países que o empreendedorismo é tão forte e lança grandes empresas e sacadas geniais nos campos da tecnologia e da biociência?

Vi um dia um rapaz bater no peito e dizer: “eu faço estágio na empresa tal” e se sentia a azeitona mais pretinha da empada. Começar de algum ponto é importante, mas não se deve achar que o chefe é bomzinho por comprar uma pizza e te dar para virar a noite. Ele está explorando mesmo. Viver do status de uma empresa é um pulo para uma segunda artificialidade. A pessoa acabada comendo ovo, mas se passando de bem sucedido.

Conheci de perto um homem que mora em uma cobertura milionária, em um bairro caríssimo daqui que é... analfabeto. Sim! Só assina sujando o dedo. Pois veja que com sua grande sabedoria e esperteza para os negócios, deslanchou! Vendo aquele homem entrar em um carro que custa uma pequena fortuna, tive vontade de aplaudi-lo. Isso sim é uma pessoa que faz. Porque as que lustram o carro dado pelo pai ainda não podem usar a conjugação do verbo “ser”.

p.s: Minha cabeça anda em trovoadas ultimamente. Quero ouvir vocês também, abram o link abaixo e vamos bater papo.

Li Mendi

Fonte=Imagem

7 comentários:

luana disse...

ai..ai... tá quente.. foi assim q peguei esse texto..rsrsr
Menina você anda visitando a minha cabeça?!? os teus textos são o reflexo de tudo que ando pensando esses dias...
Também acho que nos dias de hj as pessoas querem viver de aparência sendo que não têm a mínima condição não só financeira,mas emocional para se manterem sozinhas, com todos os desafios que o mundo lá fora oferece, por isso toda movimentação para se assumir responsabilidades é adiada o máximo possível.
Eu nado contra a maré, casei cedo, engravidei em seguida, meu casamento era horrível ,mas como tinha sido uma escolha minha suportei tudo com toda a maturidade que nem sei de onde tirava rsrsrsr depois veio a separação,novamente mais um desafio, mas aguentei firme e hoje estou aqui muito feliz com a minha vida!!!
Adorando todos os textos...
Ohhhhh além de escritora,jornalista,futura publicitária vc agora é leitora de mentes...rsrsrsr

Laila disse...

"Bastou um emprego a me impôr socialmente
E uma conta bancária suficiente
Pra eu ter então liberdade e o respeito geral.
O que te aborrece, o que tem pressa e te prende
Eu quero é saber se a minha mãe me entende
Após eu comprar meu diploma de filho ideal."

Guilherme Arantes.

Li, acho que o drama de morar sozinho ou não é um eco da geração dos nossos pais deixado pra nossa. A juventude dos anos 60 (provavelmente é por aí que os pais da maioria das leitoras nasceram) passou por muita coisa para conseguir a tão falada liberdade. Acontece que eles tinham uma causa pela qual lutar.
Mas esses jovens, hoje nossos pais e mães, querem proteger seus queridos filhotinhos da revolução, do esforço, de tudo o que eles passaram. O resultado é a criação mais livre, sem a opressão na qual eles foram criados. O problema é até que ponto isso é liberdade. Ao assumir uma postura liberal em relação aos filhos, eles não sentem necessidade de sair da zona de conforto. Então, bem no fundo, é exatamente o contrário do que faziam nossos avós: prender para soltar. Agora é soltar os filhos exatamente para mantê-los debaixo das asas.
Eu quero ver é como é que a nossa geração vai se comportar mais tarde.

Li disse...

Oi, Luana! Primeiro parabéns por ter consciência dos problemas do passado e não se enterrar em um buraco onde sente pena de si. Pelo contrário, hoje você me parece uma mulher forte e feliz por ter superado e dado a volta por cima! Agora o caminho da vida só tem a te oferecer ótimas surpresas! Torcerei! Beijos da Li

Li disse...

Laila, uma amiga psicóloga dizia que quanto mais meus pais me controlavam para estar sempre perto deles, mais estavam jogando errado, porque aí que eu queria mesmo ser "livre". rs. Outros "libertam", como falou, para ter uma tática deles estarem sempre perto. Não sei como vou criar meu filho... um dia. Vou seguir meu coração.

luana disse...

Ah Li muito obrigada pelas belas palavras...
Hoje me sinto realmente forte e feliz com as minhas escolhas, pode não ser as melhores, pode não ser as que meus pais sonharam para mim, mas são as MINHAS ESCOLHAS!!!
Beijocas Noturnas!!!

taíza_better disse...

Oiee meninas?! ^^
Bom, o q falar do seu post Li?
Mtu perfeito!!! Sabe, eu estou entrando numa nova fase da minha vida...
Terminei o col ano passado e passei pra facul de administração, que começa em agosto, mas nõ estou de férias... Estou estudando mtu pra EEAR, concurso que faço em junho!
Meus pais, axam q eu estou indo mtu rápido em relação ao meu futuro, tenhu 17 anos jah to entrando na facul e me preparando pra sair de casa e enfrentar a vida militar... Sabe, eu tenhu pressa, pressa de definir a minha vida, ter o meu sustento, meu cantinho, minha profissão, detesto estar dependendo dos meus pais pra td, mas eles axam que por eu ser mulher, posso morrar com eles ateh tarde!
Fico mtas vzes pensativa com relação aos jovens de hj, eu to aki batalhando pra ter a minha liberdade(com responsabilidade eh claro!) e eles por aí, as custas ds pais, sem a mínima preocupação quanto a isso...
O que me conforta eh saber que existam pessoas,que assim como nós, naum faz vista grossa nesse assunto, que naum axa td isso normal e sim uma grande falta de interesse e responsabilidade por parte da junventude atual!
Desculpa o texto viu meninas, mas esse assunto realmente mexe cm a minha cabeça ^^
Bjoks a todas, se cuidem
ateh +!!!

Lucy disse...

"Antes, era uma questão de honra o rapaz sair de casa aos 20, fazer sua família e mostrar que pode se custear. Hoje, os próprios pais acham que maturidade é quantos diplomas os filhos colocam na gaveta, com tanto que durmam em casa."

Ai, Li. Vc falou tudo. Os valores mudaram. Os pais de hoje parece que não enxergam que os desafios fazem o caráter da pessoa. Eles pensam que os pais deles foram mto severos e que eles podem passar a firmeza de caráter que têm para os filhos mesmo que o processo educacional seja diferente.

Não dá. Tem que sofrer pra aprender. Tem que passar pela experiência pra entender como funciona e sentir na pele o peso da responsabilidade. Eu tenho sofrido ainda hoje com o peso da responsabilidade nas minhas costas. Meu pai sempre cuidou mto bem de mim, protegendo de tudo e todos. Hoje, apesar de ser eternamente agradecida por ele ter me ensinado mtas coisas (como ter vergonha na cara e buscar fazer coisas boas), eu sinto falta da experiência. De saber como é a realidade do mundo. Mas agora estou vendo como é... tem sido difícil, mas a gente vai superando. Demora um pouco um detalhe ou outro, mas nada que não seja superável. =)

A realidade é tão mais cruel do que pensam as cabecinhas dessas pessoas que preferem depender dos pais... eu ainda dependo da minha mãe, mas não deixo de buscar a independência, mais e mais, até poder dizer: "estou em casa porque quero estar com ela e não porque preciso dela".

P.S.: Apesar de querer mto sair de casa e ter o meu cantinho, não posso deixá-la sozinha... hoje, coincide o fato de eu estar em casa com a necessidade de ficar em casa. Por isso que eu digo isso: quero alcançar a liberdade total para estar com ela porque a amo e que ela possa perceber isso. =)

Bjus, Li!!! (meu pc tá de volta, agora com net!)