30/11/2007

Era uma vez um eu que nunca chegou a ser...


Quando você anda à esmo, na penumbra de uma rua vazia, suada, descabelada, com a cabeça seguindo outros passos, não espera que vá encontrar alguém de muito tempo atrás... Mas, se não fosse inesperado, não seria "o encontro".

Fazia muito tempo que não via esse alguém. Por isso mesmo, guardávamos um do outro uma cena na memória. Emolduramos as pessoas e as pregamos na parede, estáticas. Eu era um quadro antigo e, só me dei conta disso, sendo narrada pela boca de outra pessoa:

_Nossa, você não se tornou a jornalista que viajaria pelo mundo? Você deu anos da sua vida por isso! Eu queria entender como alguém como você pode estar trabalhando em algo que não seja jornalismo!

Eu olhei para os sapatos. Por que eu acho que vou encontrar na ponta deles uma resposta, como um coelho que sai da cartola? Sorrio e encolho os ombros.


_A vida segue outros caminhos...

_Não, não é possível! _ continua na inconformação.

Eu reflito, olhando agora para o lado que, de alguma forma, convenci as pessoas sobre o que eu seria e as desapontei mundando de rumo. Dói ouvir isso, não por mim, por elas. Não menti, mas a sensação é de que acreditaram em uma mentira, já que não se tornou verdade.



Me despeço e continuo pela rua, na penumbra, sozinha, suada e descabelada. Que dia pesado de trabalho. Mas uma gostosa sensação de que vou tocar com meus pés o chão gelado da varanda. Segurar a porta empenada para a bendita abrir... Depois colocar sob o granito da pia o peito de frango que recém comprara no supermercado. Um banho bem gostoso (quente e espumante), uma roupa de algodão, o cabelo cheirando a xampu. Silenciosamente, preparo uma salada verde e sinto o cheirinho do frango grelhando no fogão.





Ponho uma canção para tocar baixinho e balanço o corpo levemente para os lados, cortando os tomates em cubinhos.Um golinho no suco gelado, um sorriso doce de quem curte o momento. E o momento é a noite quente e tranqüila na minha casa.

Será que a jornalista seria assim? Aquela viajante pelo mundo, sem lenço e sem documento? Não posso dizer, porque não cheguei lá. Mas, sei que, se a felicidade é um estado de espírito, e não uma posição social, eu sou, então, felicíssima.

O telefone vibra na bancada da cozinha e eu já sei quem é. Me debruço, mordo o lábio e dou um risinho nervoso. Uma linda mensagem "impublicável, perdoem" que me faz lamber os dedos lambusados com o molho salgado. Ser amada é o melhor projeto de vida.

A profissão e o coração tomaram outros rumos. Não importa para onde vou, eu preciso fazer o caminho feliz. É estranho as pessoas querem chegar a um ponto para só lá, naquele cume escalado, encontrarem o prazer da existência. O trajeto deve ser o lugar da realização e não o alvo. Senão, de uma vida de anos, há pouco a se lembrar. Não sei do que você, por exemplo, considera relevante para virar memória. Eu procuro a simplicidade dessa música agradável, da comidinha que eu mesma preparei e dos dedos sobre o teclado escrevendo, minha eterna paixão.

Eu não sou o que disse que ia ser, mas sou bem mais feliz do que pensei que podia.

Fonte: Imagem 2

Li Mendi

Nenhum comentário: