13/11/2007

Não vale o Oscar mas, quero compartilhar com vocês.

Era uma vez, um gato fosco chamado Tuchim. Ele era muito feliz até o dia em que encontrou a gata Hiscar. Ela o chamou de gato sem personalidade porque ele não tinha uma cor definida. Para ela, ele não era branco, nem preto, nem outra cor.

Era uma espécie de perolado, puxando pro salmão, com um leve amarelo queimado nas orelhas. E tudo isso fosco. Ela gostava dele, mas a cor a deixava enjoada porque era como água morna, que proporciona uma sensação de mal-estar e... bem, abertamente, dava vontade de vomitar.

Detalhe: devem ser gatos de outro planeta, já que os animais da terra não enxergam cores.

Mas, enfim, Tuchim não se deixou abater, apesar da sua tristeza. Então, como ele amava aquela gatinha manhosa (sem indecências na mente, crianças), ele resolveu definir a própria cor. Foi até uma casa de tintas e escolheu uma cor forte, clara, que o destacasse de todos.

Magenta.
A atendente Lia, apesar de achar a cor dele muito atraente, ajudou-o derramando a tinta em um balde grande e Tuchim entrou, saindo de lá totalmente definido em sua cor. Sorriu, triunfante.

Ele foi todo pomposo mostrar a Hiscar sua nova cor. Definida, forte, diferente. Ela achou muito feia. Sem graça. Uma cor muito feminina para um gato.

Ele correu até a casa de tintas, desesperado, e pediu opinião da Lia que foi solícita ao ajudá-lo a experimentar outras cores.

Amarelo ovo, verde musgo, salmão, vermelho sangue, azul bebê, verde oliva e por aí foi. E, a cada nova coloração, a tal da Hiscar resmungava. Sempre arranjava uma desculpa esfarrapada e menosprezava o pobre garoto.

Depois de umas trinta cores, o pobre Tuchim já não agüentava mais o cheiro das tintas e os banhos que teve de tomar a cada mudança. Voltou à loja, tirou toda tinta do corpo e resolveu tentar os extremos. Preto e, depois, branco. Hiscar ficou encantada com o preto, mas ainda assim, pediu branco.

Tuchim teve bastanta trabalho em manter aquela cor. Sempre precisava retocar, Hiscar não queria que soubessem sua cor natural, então, ele tinha um cuidado extremo. Lia o ajudou durante muito tempo e sempre lhe dizia que ele não precisava mudar sua própria cor para agradar alguém. Tuchim não ouvia, simplesmente continuava sua saga pela busca da satisfação de Hiscar.

Um belo dia, um gato negro de olhos azuis e pelo macio mudou-se para a vizinhança e Tuchim encontrou-o passeando com Hiscar pelo jardim. Ela estava toda derretida por ele e esnobou Hiscar.

- Quem é este gato, Hiscar? – perguntou Tribus, o gato negro.

- É só um gato da vizinhança, querido.

Aquilo quebrou o coração de Tuchim em mil pedacinhos e ele correu para a loja, em busca do ombro amigo de Lia.

A loja havia fechado e sido transferida para outro bairro. Ele, então, sentou-se na calçada e chorou por longas horas. Até que, ao cansar de chorar, levantou e foi correndo procurar o novo bairro da loja de Lia. Andou, andou, andou, perguntou, andou, andou e andou. Até que, finalmente, ele encontrou a loja.

Lia quase não acreditou e ambos se abraçaram felizes.

- Tuchim, não achei que fosse vê-lo novam...

- Lia! Ela me deixou por outro! – grita Tuchim, num desabafo rouco e choroso.

Lia deixa o sorriso cair e seus olhos enchem-se de lágrimas.

- Quer dizer que... você veio até aqui para me dizer isso?

- Sim, eu preciso de um ombro amigo e... – Lia vira-se, desanimada, e sai. – Lia? Que houve?

- Eu sempre gostei de você. – ela caminha para dentro da loja – Desde o primeiro momento em que o vi, sabia que você é especial por causa desta cor que lhe foi dada. Eu te ajudei em cada momento porque achava que você seria feliz e se não fosse, enxergaria que você é lindo e não precisa mudar a si mesmo para agradar os caprichos de alguma gata abusada e mimada. Mas, você ainda não enxergou isso e eu estou sofrendo. Por favor... – ela entra - ... não me procure mais.

Fecha a porta.

Tuchim, atordoado, passa por um daqueles momentos de flashback, com todas as imagens de Lia junto a ele, desde o primeiro momento. Voltando a si, ele enxerga um gato velho, grisalho, na soleira da porta pela qual Lia entrara.

- É, bichano, as mulheres não são fáceis. – ele lambe uma das patas com dificuldade.

- Quem é o senhor? – Tuchim aproxima-se e senta-se ao lado dele.

- É fácil te dizer quem sou porque eu já sei a resposta. Agora, quem é você?

- Ora, eu sou Tuchim, o gato idiota...

- Hahaha, você não é idiota. Só está agindo como um, mas isso passa.

- O senhor tem um pêlo estranho...

- Sim. É especial. – o gato grisalho puxa uma foto da carteira e mostra.

- O senhor era da minha cor!!!

- É bichano, nós somos gatos especiais. E você está perdendo a oportunidade de ser especial para ser alguém comum só para agradar uma fêmea. Não faça isso. Não perca seu tempo. Seja você mesmo porque a autenticidade é que traz o verdadeiro amor.

- O senhor tem razão.

Tuchim respira fundo, olha para a porta, prepara-se e, de um salto, consegue abri-la...

***

- Ele é um idiota. – Lia caminha a passos firmes, resmungando.

- Não seja dura com ele, os machos não aprendem isso facilmente. Você enxerga o coração dele, não enxerga? – buscando acompanhá-la, Carmin tenta ficar à frente, caminhando, habilidosamente, de costas na mesma direção em que Lia, obstinadamente, segue.

- Claro que enxergo, mas não quero alguém que, não sabendo o que quer, não consegue tomar uma decisão e correr o risco. – encara, olhando fixamente nos olhos, mostrando decisão e certeza da sua resposta. – Está preso ao passado, melancolicamente... – retoma o seu caminho.

- Ele não está mais ponderando! – afasta-se e caminham, lado a lado. – E ele já sabe o que quer e está atrás do que ama,... – olha para a porta atrás de si – ...fazendo o possível e o impossível para satisfazer as expectativas. Você vê que ele não desiste tão fácil, ele luta pelo amor. – de um salto, pára à frente de Lia e desafia com o olhar – Não é alguém assim pelo qual você esteve buscando?

- Eu... – pára e pensa um pouco, desnorteada com a pergunta tão certeira, mas retoma a, já abalada, certeza, falando um pouco mais alto para mostrar uma convicção que não crê possuir totalmente. – eu não quero um gato cego! – anda mais rápido, pensando que aquele argumento foi, um tanto quanto, errôneo.

- Mas a cegueira vem da paixão. O amor é a luz que ilumina o caminho. E cada um tem o seu tempo para aprender a andar na luz. – vai atrás, falando rápido e claro para não deixar que o objetivo do diálogo seja perdido em meio à tempestade de sentimentos, pois percebeu que sua amiga já estava desesperada pela verdade jogada assim, tão diretamente.

- Eu não tenho todo o tempo do mundo!!! – voltando seu corpo de supetão para Carmin, levanta as patas no ar, gritando, e volta a andar. Estava decidida a não se deixar mais sofrer.

- É claro que tem. – mais um salto e Carmin fica à frente novamente, encostando-se na parede que marcava o fim do corredor, uma bifurcação - Você tem sete vidas para isso! Quer gastá-las com gatos decididos que só querem você para reproduzir ou passar o tempo? Não seja orgulhosa!

- Não sou orgulhosa, apenas valorizo-me! – caminha em direção à parede, com passos e olhar firmes. Segue o caminho da direita.

- Isso não é valorizar-se, isso é fugir do sofrimento. A vida é feita de escolhas. Cada escolha envolve uma perda. – Carmin, uma gata de pêlos levemente ruivos, olhar de sábia e coração de criança, não desiste. Salta sobre as costas de Lia, caindo à sua frente mais uma vez. Impede a passagem. Encara, olho no olho. - Cabe a você decidir o que é descartável e não lhe fará falta, Lia.

***

Olhando para o corredor longo, Tuchim vê Lia já virando à direita e grita, desesperado!

- Lia! Eu amo você! Sempre amei desde que eu a vi, mas eu não percebi porque estava cego...

Carmin, sabendo o que aquela decisão representava para sua amiga, Lia, sai de mansinho, seguindo o corredor, e sussurra para a gatinha insegura:

- Não morra na praia, o verdadeiro amor vale a pena.

Lia volta-se, espantada com Tuchim. Não entende como ele abriu a porta por fora, já que só há um mecanismo interno para os gatos terem acesso por ali. Respira fundo. Reflete.

- Por favor, me perdoe! – Tuchim corre em sua direção.

Lia rende-se ao vê-lo tão próximo de si, com o olhar inocente, mas agora, firme. Como quem olha para o que deseja e não vai desistir por nada no mundo. Ele irradia uma segurança diferente agora.

- Fica comigo.

- Sim... – derrete-se Lia sobre as patas firmes de Tuchim e...

São felizes para sempre!!!

P.S.: Não vou detalhar como essa felicidade é alcançada, porque afinal, a vida não é feita só de flores. Mas eles foram felizes para sempre porque, apesar dos pesares, mantiveram-se unidos, honestos e companheiros entre si. Trabalharam duramente, dia após dia, porque a felicidade é agora, é o que se vive no hoje. Não espere casar, ter filhos, ter um bom emprego ou qualquer outra coisa para ser feliz.

Seja feliz antes de tudo e você o será sempre, independente de qualquer circunstância.

E... até com nomes não muito populares, há meios para fazer a diferença!!!

!!! Seja singular !!!

Autora: Lucy.

5 comentários:

Deisinha Rocha disse...

aih Lucy, lindo.

sim, pra se viver tem q ser no agora... :)

aninha disse...

aiiiii!!!!! perfeito!!!!!!! lindo demais lucy!!!!!!!

Lucy disse...

Thanks, migas!!! \o/
bjus!!!

Tita disse...

Lucy!! Que texto mais lindo e fofo!! Achei demais quando vi que foi vc mesma que escreveu!
E vaaale o Oscar sim!! O nosso Oscar hehe!
Bjooo

aninha disse...

concordo com a Titta!!!!!!! por onde vc anda dona mocinha ????