08/11/2007

Estética da fome, cansei!

"Pode Crer" entrou em cartaz como um filme jovem. Eu não estou no filme, ali são os meus pais e os cineastas. A geração que fala da sua geração. A nostalgia não me enfada, mas a repetição sistemática de produções sobre a chamada “geração perdida” da década de 80 e o período dos governos militares do “Ano que meus pais saíram de férias” já me cansou! No Brasil, se o patrocínio é escasso, quando surge, não se perde tempo para reafirmar o Cinema Novo.

Vou tentar ser mais didática para que não me abandone à minha própria sorte logo na 7ª linha. Os filmes conceituados “digestivos” (como chamamos os “pipocões”) falam de gente rica, vivendo em casas bonitas e andando em automóveis de luxo, com objetivos industriais de entreter e sem mensagens políticas. Na estufa da microsfera rica não há a fome enraizada da civilização das ruas. O Cinema Novo é um fenômeno cinematográfico vai na contramão, se compromete com a miséria e a denúncia social. Temos aí o Porto das Caixas, Vidas Secas, Deus e o Diabo, Ganga Zumba, Cinco Vezes Favela, Sol sobre Lama etc. Essas produções, não se esqueçam, estão dentro do contexto da rebeldia e revolução dos anos Jânio-Jango que culminarão com as mudanças após o fatídico abril.

Estamos em 2007, o caos social continua rendendo manchetes e... dando película para filme. Eu gostei sim do Tropa de Elite, Ilha das Flores, Edifício Máster ou Morro dona Marta, não vou negar, achei interessante “O Ano” que vai fazer figuração no Oscar. Mas não me levem à fogueira porque ri muito com “Os Normais”, “Sexo, Amor e Traição”, “Se eu fosse você”.

Muita gente faz uma careta quando olha na lista de filmes em cartaz um brasileiro porque sabe que não vai encontrar melodrama, mas personagens que estão procurando uma via para superar suas fomes. A estética da fome não é o que o cidadão comum querem ver. A professora que trabalha em uma escola horas exaustivas ou o estudante explorado por alguma empresa vivem uma rotina estafante querem rir, esquecer o mundo lá fora e despressurizar.

Como a verba é pouca, vamos ser só críticos. -diz a lógica dos produtores. Nada de “circo” para o povo já sem pão. O descaso social das telonas vende como também vende os miseráveis das telinhas de Sebastião Salgado. É uma pena que só eles possam existir. Que não haja verbas para se fazer também os filmes que eu procuro quando estou aqui sozinha em casa, sem meu querido companheiro que mora longe. Porque eu não quero chorar, eu vivo no mundo lá fora. Eu quero rir, pode me chamar de alienada, se é o preço para eu ter a licença de me entreter com um BlockBuster.

Fui ver SuperBad, já que esse era o único inédito no momento para mim. Eu olhei para aqueles personagens feios, imaginei que seria um remake de American Pie com todas as cenas escatológicas que tivesse direito e... me surpreendi. O filme é sobre “como três adolescentes farão para comprar bebidas sem identidade e levar a uma festa”. O sexo está nos diálogos travados, cheios de obsessões e medos de uma maneira tão engraçada que todo o público da sala explode em uma risada quase catártica. “O virgem de 40 anos” é um filme ruim porque o ator não tem naturalidade para falar sacanagem. Mas nesse filme, o gordinho desesperado conseguiu ser imbatível.

Os cineastas brasileiros certamente diriam que é um filme sem mensagem. Mas quem disse que aquelas 180 pessoas que lotaram a sala estavam querendo a mensagem? Ela está na manchete dos jornais, na boca dos telejornalistas. Deixa a gente se matar de rir com os desenhos divertidíssimos de pênis (a melhor cena de SuperBad!!!). A nossa vida já é um Cinema Novo, aquilo que está na tela é o que queríamos que fosse nossa realidade, feliz, engraçada. A gente não agüenta mais o que é espelho. Claro que só eu sou loca de dizer isso. A maioria quer bancar um de pseudo-intelectual, mas nem sabe quem é Glauber Rocha e nunca estudou história do cinema. Para não gostar é preciso ter base também.

Os filmes americanos se salvam? Também tenho meu ácido para jogar neles. Falta a delicadeza de algumas produções de cinco, seis anos atrás, pré-Internet, onde qualquer site pornô satisfaz por uma questão de cliques a ânsia por nudismo. Tudo já se mostrou? Então, agora vira banal, o casal dá dois beijos e... cama. Briga, mais cama e uma briga final, beijo, pronto. Há uma violência desmedida que tira o tempo para a discussão das vivências psico-sociais.

Ah! Li, perai, tu quer tirar então o conflito do Cinema Novo e injetar no pipocão americano, que espécie de contradição sem noção é essa...? Calmaaaa! Veja o filme
“Amor ou Amizade”, há uma sutileza na construção dos personagens que te faz se apaixonar por eles, entrar no filme mesmo. Mas, dá o play em “Todos contra Tucker” (John Tucker must die). O cara faz de tudo para conseguir ficar com a garota, descobre que ela estava só brincando com ele, como punição joga uma torta na cara dela, que ri e joga de volta, apertam as mãos e dizem “amigos”? Eu fiz uma cara de paisagem, para não ser bem honesta e rasgar o verbo, fiz cara de cú, e quase gritei puta que pariu que isso ficou baixando uma semana para terminar assim!

Está grande, mas como tenho certeza que já abandonaram pelo meio o texto, posso alongar. Se bem, que leitor de blog lê o primeiro e o último parágrafo para ter o que comentar... Me surpreendi com o filme
“Just a Kiss” (ou "Ae Fonde Kiss"), acho que aqui traduziram literalmente “Apenas um beijo”.

Mostra o conflito de um paquistanês que está prometido em casamento e se apaixona por uma cristã que começa a ver sua vida desmoronar quando o padre diretor do colégio onde ela trabalha resolve interferir na privacidade do seu relacionamento. A câmera do filme está bem perto dos personagens, posso senti-la tremendo (eu disse sentir, não se vê ok?) no ombro do cinematografista. Ou parada em um ponto da sala que transforma tudo em um Big Brother angustiante. A fotografia muito clara tirava a poesia da cena para torná-la ainda mais verossímil. No fim, eu senti que ia chorar a qualquer momento. É uma carga tão forte, que, no clímax, pensei: “Agora ela vai se matar!”. Dá um nó na garganta, uma raiva misturada com perplexidade que você consegue entrar nos personagem. E, no final, valeu outra puta que pariu, mas agora com um riso de “que máximo!”. Posso dizer que o último que mexeu comigo dessa forma foi Crash.

Fonte: Imagem, Imagem 2.

Li Mendi: Me preparando psicologicamente para encarar um livro sobre "Hipermidialidade". Eu preciso ter forças! Aff. Acho que antes vou atualizar meu seriado
Fonte do Amor com mais um capítulo.

No play toca: If I Don't Tell You Now (Ronan Keating)



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