12/11/2007

Centenário: Para sempre Frida Kahlo

[Aula de conversação em espanhol, 9:30 da manhã, centro da cidade do Rio, 2º andar, Instituto Cervantes, 2 anos atrás... ]

Conheci Frida através de uma intimidação do tipo “Sabe de quem eu to falando?”.

Éramos em volta da mesa: um professor de Madri, recém chegado ao Brasil (que não entendi nada de português e pedia para perguntar as dúvidas “impossíveis” em inglês); uma professora universitária de direito ambiental e eu, uma estudante de jornalismo do 4º período. O assunto, Frida Kahlo.

A professora que vou chamar aqui de Virgínia era uma recém-separada que descobria o mundo depois dos 45. Roupas sensuais, risinhos demais e, claro, um bom golpe de charme para cima do espanhol de olhos azuis. Para compensar a sua gramática ainda sofrível, ela utilizava o artifício baixo de me humilhar e me rebaixar diante dele. Sua técnica? Falar de assuntos intelectuais com ele como se eu não existisse. Eu, juro, que me esforçava: “Quem é Frida Kahlo”? , "Como você não sabe de quem eu to falando?" – perguntou ela e arrematou. _ É, você é muito novinha mesmo, nunca vai saber tudo.

Virgínia olhou para o professor, deu uma gargalhada e colocou a ponta do braço do óculos na boca. Aquilo soou tão promíscuo quanto “
Você quer ela que não conhece Frida Kahlo ou eu, que conheço Frida Kahlo?”.

Eu guardo comigo a frase de um velho livro(1977), ganho das mãos de um grande mestre de História. Guardo-o na prateleira à minha frente, amarelado e de páginas soltas, que me pede para pegá-lo como bebê: “Eu não sei o que muitos sabem. Mas sei ser e sei saber o que muitos não sabem.” (Arthur da Távola, Mevitevendo, ed. Salamandra)

Fui me encontrar com Frida Kahlo e falo dela aqui por causa do centenário de seu nascimento esse ano. Rege a lenda que, nas noites de lua cheia, os que caminham solitários pelas montanhas do México costumam ver uma mulher altiva, de vestidos soltos e coloridos e grandes brincos pré-colombianos. Eles dizem ser o espírito de Frida, que amou obstinadamente o muralista Diego Riviera. Sua obra colorida era um contraste da vida real pontilhada de tragédias, dores e traições.

Em uma cadeira de rodas por causa de um acidente que teve de ônibus, Frida era sincera consigo mesma. Ela desenhava seu rosto em corpo de animais com chifres, as lágrimas, deixava escorre as gotas de sangue na tela; tudo nu, exposto, rasgado, na essência. Eu me encontrei com sua obra justamente depois de ter passado por uma decepção amorosa digna de roteiro de novela mexicana. Seu sentimento de tristeza nas pinturas me tocou a alma. Nem preciso dizer o quanto fiquei emocionada e chorei ao ver o filme que narra sua vida sob a direção de Julie Taymor (2002).

Mas não só Frida foi importante, Virgínia também. A vida começa a realmente ter diferença quando você está rodeado de pessoas que te provocam a inquietude intelectual. Aquelas que te desafiam com livros, filmes, artistas e aprendizados desconhecidos. Nunca vou esquecer de Virgínia, mulher arrogante e convencida, mas que todos os dias durante aquele verão me lembrava o quanto eu ainda não sabia. E nunca vou saber por completo, o que importa é a busca.

Gosto de desafios mentais, de poder subir um degrau para alcançar alguém mais acima. O conhecimento para mim sempre foi muito estimulante, pulsante e tantos outros antes. Me aflingem conversas que não saem do nível do ego. O que "eu fiz, onde fui...". Pessoas que só sabem falar de si e não têm qualquer assunto paralelo a acrescentar me entediam por completo. Por exemplo, revelo uma coisa aqui que acho que nunca tratei no blog anterior: há namoradas que só sabem falar 24 h da carreira militar dos seus respectivos parceiros. Não existe vida inteligente além daquele referencial. Isso é muito triste, pelo menos para mim. Alguém ter o projeto profissional do outro como eixo centralizador das suas perspectivas é tão medíocre. Claro que, eventualmente, eu partilho também minhas vivências e agonias a respeito de conflitos inerentes ao namoro à distância, mas há o que exceder a isso.

Hoje, estava agoniada por não ter recebido minha revista que assino e pago com meu suado dinheiro. Liguei para a central e reclamei. Uma hora depois, vem o simpático entregador com suas sobrancelhas brancas e cabeludas e um belo sorriso me entregá-la. Suspirei de alívio. Vou ao banco agora e levá-la na bolsa. Enquanto sinto no pescoço o ar bufante de pessoas impacientes na fila, irrequietas com a espera, eu leio prazerosamente. Não posso mudar a rotina chata e burocrática de certas tarefas do trabalho, como pagar contas, mas posso torná-la mais agradável com o passeio pelas notícias da semana. Queria que existisse carros voadores, mas ainda não é possível, então, tolero o baita engarrafamento com algum livro ou jornal, no translado do ônibus. Eu gosto de sair da realidade e mergulhar em uma outra mais atraente.

Compreendo que esse estilo de vida não é levado a cabo por muitas pessoas. Por exemplo, o nosso blog. Lembro de no começo haver 20, 30 comentários. Agora, nenhum. Por quê? Houve uma mudança na linha editorial. Falar só de carreira, de sofrimento e saudade não me "apetece" (adoro este verbo em espanhol, como gosto do som de scrutinize, em inglês, né Lucy?)mais. Como muitas namoradas/ noivas/ mulheres vivem para falar só disso, não há mais qualquer interesse em compartilhar outro tipo de experiência sensorial. É uma escolha e toda escolha implica perdas.

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Site Oficial de Frida Kahlo
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Sobre a vida da pintora
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Fundação dedicada a sua obra
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Histórico sobre a artista (ótimo!)

Fontes=
Cartaz do Filme

Li Mendi

3 comentários:

Deisinha Rocha disse...

tava lendo aki e me lembrando um pouco das minhas aulas sobre a Frida no ano passado em artes plásticas... adorei estudar sobre ela...
rsrs


mas Li, é assim, né?!
Vivendo e aprendendo...

;)

Li disse...

Sim, vivendo e aprendendo mana.
Beijo ni vc! rs

Lucy disse...

Desafios!!! Eu gosto de desafios mentais, esse degrau que devo subir para alcançar quem está lá em cima, esperando por mim e estendendo a mão para me ajudar.

É muito bom amar alguém que te estimule à buscar sempre mais! A saber mais! A ser mais! \o/

E nossa linha editorial mudou e vai continuar mudando, uma coisa ou outra, mas sempre buscando melhorias! Não podemos parar no tempo!!! =)

Bjo ni vcs, meninas!!! ;)