29/07/2007

Relacionamentos frágeis

fotógrafo:Marcyn Klepacki(autor da foto: Marcyn Klepacki)

[música de fundo: clique aqui]


Li: _Oi, Lucy, estava pensando aqui comigo... É incoerente como atualmente as pessoas prezam a falta de compromisso e paradoxalmente estimulam as crianças na tenra infância a demonstrarem ligações afetivas. A própria mãe ri entre as amigas dizendo que o filho tem já uma “namoradinha”, mesmo que essa seja uma construção apenas da sua cabeça. E ela ainda irá se surpreender, quando o vir transar na sua cama, naquele fim de semana que decidiu viajar e voltar mais cedo para casa. Essa acabará sendo uma reclamação futura que ouço com respeito ao comportamento dos meninos que estão ingressando na academia militar, ou mesmo em outros cursos das Forças Armadas. “Ah! Eles não querem compromisso, eles querem zoar todas, ficar com todas. Precisam passar por essa fase primeiro”. Você acha que todo mundo tem que passar por essa “fase” de “galinhagem”, como diz as pessoas?

Lucy: _Eu creio que não e, em minha opinião, não é fase, é estilo de vida que se escolhe voluntariamente e conscientemente. Tem gente que passa por isso, aprende e amadurece, outros, não. Ficam naquele período por muitos anos e acaba perdendo grande parte da vida pensando que é só isso mesmo: diversão e mulheres. E os pais incentivam mesmo as relações afetivas das crianças, acabam negligenciando a qualidade e focalizando a quantidade, principalmente, com relação aos meninos. Dizem “prendam suas galinhas porque meu galo está solto”, e por aí vai. Mas, no geral, os pais proporcionam aos filhos o que crêem ser importante e, também, podam certas coisas (na medida do possível) que são consideradas erradas. Acontece que a escolha é do filho: seguir os pais ou o os amigos. E então, a velha máxima que diz “dize-me com quem andas e te direi se vou contigo” (ou “e te direi quem és” também serve, [risos]), como no seu texto sobre amizade. Ou seja, você escolhe seguir por determinado caminho, fazer determinadas coisas, ser dessa forma. Ou não. Você segue um caminho diferente do ‘tradicionalmente’ preferido pelos adolescentes. O que me diz de adolescentes casados com o(a) primeiro(a) namorado(a) (que é o primeiro em tudo) e são mais felizes do que os(as) que foram promíscuos por tanto tempo?

Li: _Pois é, conheço algumas pessoas que casaram com o primeiro namorado e são muito felizes mesmo. Eu espero que seja meu caso. Gostei dessa sua reflexão, que seja um estilo de vida e, já pensou, esse estilo pode também ser passageiro...

Bom, o primeiro amor nasce esbarrando nos espinhos. Ele brota do mundo irreal e cheio de fantasias de nosso inconsciente e terrivelmente não se concretiza saciando todos nossos desejos primitivos. Não se sabe bem o que se busca afinal no outro, o que se tem é muita vontade de experimentar tudo que é novo. E isso delega uma vital pré-disposição ao erro, à dor e ao arrependimento.

(Se bem que no caso daqueles que vão do primeiro namoro direto para o casamento, esses conseguiram passar por todas às fases juntos, sem precisar terminar e começar de novo outros namoros. Isso é fantástico.)

Mas, para a maioria dos jovens, vale o preço disso tudo para se destacar na frente dos amigos como a “garota” ou “garoto” vivido e resolvido no grupo. É interessante perceber como se “destacar”, na realidade, é uma tentativa de anular a diferença e não destoar pela ausência de experiência. Os que ficam por último sentem o peso e o desespero de se livrar logo da falta do primeiro beijo, da primeira transa, da primeira matinê. Quando eles (os milicos) estão entre o grupinho dos seus amigos (também milicos) há uma vontade aparente de querer se mostrar o mais forte, o “pegador”, ou pelo menos não se destacar como o que faz diferente. Isso pode levar a comportamentos que atrapalham até o namoro. “Ah! Os meus amigos não ligam todo dia, por que eu tenho que ligar?” ou “O meu amigo fica tanto tempo sem ver a namorada, você não acha que está reclamando demais?”... e por aí vai. Quem nunca ouviu o namorado citar o comportamento dos amigos que atire o primeiro “arroba”, rs.

Lucy: _Eli, pense rápido: @@@@@@@!!! (risos)
É verdade, esse comportamento é real para a maioria dos adolescentes, mas sempre tem a exceção. Eu posso jogar vários arrobas porque Deus abençoou-me com um namorado diferente (louvado seja nosso Pai querido), então, nunca comparamos nosso relacionamento com outros, exatamente porque queremos fazer do nosso jeito. O perfil dele não é daquele tipo de cara que mede a si mesmo pelos outros (e essa é uma das características que eu mais admiro). E eu sempre comparava porque não entendia certas atitudes de algumas meninas com os namorados. Sempre achava que elas deveriam fazer algo diferente do que faziam, porque daquele jeito não funcionaria, pelo menos na minha concepção! Mas, aos poucos, entendi que não dava para conversar sobre isso com elas, cada uma acharia seu próprio caminho e eu já nem falava mais sobre meu namoro porque elas não entenderiam... você deve ter percebido isso no início também, de só conseguir conversar (numa conexão mais profunda e compreensível) com outras namoradas de militar, não é verdade?

Li: _Peraí, estou tirando os arrobas, caiu uns aqui dentro da blusa. Tem um aqui preso no meu cabelo. (risadas). Eu tinha realmente esquecido de colocar essas exceções, o seu namorado é realmente muito legal, quem te ouve falar não vai entender mesmo nunca!!! Mas pula isso. Os relacionamentos estão cada vez mais frágeis. O sujeito pós-moderno tem ao seu favor vários mundos prontos para se acoplar em sua vida no modelo chave-fechadura. Quer morar sozinho? Não se preocupe, nós fazemos para você embalagens pequenas e individuais para todos os produtos e assim você gastará menos! Quer largar seus pais e sua esposa? Divida um apartamento com um amigo ou um estranho, isso é normal, é “in”. Já imaginou, lá no século retrasado, uma mulher que casava aos quatorze anos com um barrigudo que poderia ser seu avô, dizendo para sua mãe: “vou alugar um conjugado perto da faculdade e dividir com alguém”? Seria de arrepiar o cabelinho da nuca.

Por isso, fica mais fácil compreender agora como atualmente não é tão simples assim sustentar uma relação, uma vez que o mundo não condena moralmente da mesma forma atos que, passe o tempo que for, ainda irão ferir o nosso coração, como a traição, por exemplo.

Lucy: _E eu acrescento: “não se fazem mais pessoas como antigamente”! (risos) Estou rindo, mas não é de felicidade ou alegria, estou rindo de decepção, um sorriso que diz “Como é que pode ser assim? Pára a vida que eu quero descer porque entrei no transporte coletivo errado!”. Eu vejo que as pessoas caminham para o mundo do descartável, onde tudo é substituível, até os relacionamentos. Ontem, eu estava na academia correndo na esteira e assistindo Friends, um episódio em que a Phoebe (leia-se “Fibi”) conhece um rapaz que ela crê ser a alma gêmea da Mônica. Ela comenta sobre o rapaz com a Mônica e o Chandler, seu namorado, no café “Central Perk” e, umas duas cenas depois, eles estão novamente no café e a Phoebe entra com o tal cara, cumprimenta o casal e gesticula para o Chandler dizendo que era a tal alma gêmea da Mônica.

_Nisso, o Chandler fica todo sem jeito e numa conversa curta, ele tenta se afirmar quebrando um argumento do cara. Não faz tanta diferença e o cara comenta da qualidade da comida do restaurante que a Mônica trabalha (ela é a chef). Ele, então, levanta-se oferecendo buscar um café e diz que deseja falar sobre o menu. A Mônica vai junto dizendo que “se vai falar sobre mim, eu vou junto”. Ficam o Chandler e a Phoebe sentados e ele pergunta, porque ela fez isso. Ela responde que não foi intencional, nem sabiam que estava ali. Então, o Chandler fica desesperado quando a Mônica volta rapidamente para pegar a bolsa e comenta que adorou conhecer o tal cara. Depois desse comentário, que foi feito bem em frente ao próprio namorado, a Phoebe olha despreocupadamente para o Chandler e diz: “não se preocupe, eu vou achar outra pessoa para você”. Como se fosse sorvete que derramou e a mãe fala: “não chora, eu compro outro pra você”.

_Quero dizer, realmente, as pessoas começaram com um passo pequeno: transformando as pequenas coisas em descartáveis (copos, talheres), seguindo-se das grandes (conheço gente que troca de carro todo fim de ano, celular é como bolsa que se usa algum tempo e, então, é preciso trocar para “renovar”) e, agora, os sentimentos. Imagina? Algo tão importante, frágil, que precisa de cuidado, atenção, carinho e dedicação e que leva anos para serem entendidos e adequadamente adaptados... é preocupante, porque não quero que meus filhos estejam expostos à esse tipo de pensamento (o que, inevitavelmente, acontecerá, e é por isso que pretendo dar especial atenção à essa parte da criação deles).
_O mundo diz ter evoluído, mas não consigo ver nada além da degradação dos conceitos mais puros, das idéias mais singelas e otimistas, e... dos sentimentos verdadeiros, que é o amor.

Li: _ Adoro nossas conversas, sempre viagens!!! Beijos!

6 comentários:

aninha disse...

meninas, passando pra dar um oi... ainda não li o texto todo, mas volto outra hora pra ler com calma!!! mas meu oi fica registrado!!!!!!

aninha disse...

já ia esquecendo... comecei um livro em homenagem aos meus irmãos!! confiram lá!!!!

www.meuirmaomeuamigo.blogspot.com

Tita disse...

Oi Li! E agora oi Lucy! Que legal o que vcs fizeram! É mais dinâmico (dã), gostei! Faz tempinho que o post tá aqui, mas só tive tempo de ler agora... Mas qdo der eu passo aqui viu!
Esse é um assunto que me assombrou no início do namoro. Ok, às vezes ainda passam alguns pensamentos assim pela minha cabeça. Mas acho que é bem como vcs disseram. Uma questão de opção. A pessoa escolhe o que fará ela mais feliz! Os dois lados tens seus prós e contras, depende da pessoa e pelo que ela precisa passar pra crescer.
Algum tempo atrás eu dizia que nunca ia namorar mais que 2 meses, que é perda de tempo. Qdo via gente namorando à distância não punha um pingo de credibilidade e falava "ela acredita mesmo que ele não fica com ninguém lá na cidade dele?"... Pooois é.. As coisas mudaram! Agora não troco por nada o meu amor "à distância". Porque não é nada superficial como as convicções e teorias de antes.´
Aí meninas, legal viu! Continuem com os posts!
Beijooo!

Li disse...

Oi, Tita! Brigada pelo seu comentário! Volte sempre! É um prazer para nós saber que você gostou e te fizemos pensar sobre o tema! Beijocas...

Lucy disse...

Oi, Tita! Obrigada pelas boas vindas!! Estou mto empolgada de estar agora com vocês! =)

Gostei de ver a sua mudança, as coisas acontecem assim mesmo... com o tempo a gente aprende o que é real e o que não é.

Volte sempre mesmo, tá?
Bjão!!! \o/

Anônimo disse...

A questão é que o que achamos de bom para nós nem sempre é bom para os outros, pois os outros são diferentes de nós. Fazer o bem ao outro sem que de nós ele necessite pode ser até uma ofensa. E atendê-lo segundo às suas necessidades, não raro, representa para nós, um prejuizo.