18/07/2007

Com quantos amores se faz uma vida?

Eu por muito tempo carreguei uma seguinte concepção: “Amor é um só”. Grande, forte, eterno e insubstituível. Até que um dia, arrasada totalmente por me dar conta de que o dito tal Amor único não deu em nada, veio uma amiga em meu socorro me fazer a mais bestas das perguntas, diante da minha crise existencial:

_O que você mais gosta de comer quando sai?
_Ãnh?
_Isso mesmo! O que você gosta de comer?
_Sei lá... Pizza.
_Mas você também gosta de bata frita e bolo de chocolate?

Onde é que ela estava querendo chegar com amor e bolo de chocolate? _ pensei, mas visto que era psicóloga, aquilo tudo deveria desaguar em uma boa explicação.

_Gosto, claro! _ ri.
_ Então, por você gostar de pizza não significa que você não vai gostar de batata frita. São todas comidas, com nomes diferentes. Da mesma maneira, não existe um único amor, existe maneiras diferentes de se amar, pois cada pessoa com quem você vai estar te fará feliz de uma maneira.

Interessante. Comecei a refletir que não podemos fechar nossos caminhos para possibilidades por causa de idéias naturalizadas como certas. Se aquele primeiro amor, apertado entre os espinhos, não vingou, é fraqueza achar que nada poderá dar certo outra vez. Como se criássemos uma redoma de vidro e ficássemos ali protegidos das novas chances de ser feliz.

Parece loucura que quando nos dispomos a novamente apreciar outra pessoa, automaticamente sentimos que estamos traindo aquele amor que colocamos como insubstituível dentro de nós. A questão é que não estamos colocando um outrem no lugar do primeiro, afinal, cada um tem sua singularidade. Mas é fato, o melhor remédio para esquecer um amor que te fez sofrer é amar outra vez.

Não podemos, porém, passar a vida de galho em galho. Que horas, então, parar? Chegar a conclusão de que esse é o amor para juntar escovas de dente? Infelizmente quando isso acontece não soa nenhum alarme e começam a piscar um monte de luzes vermelhas. A vovó vai te dizer: “Querida, você vai sentir”. Muito abstrato, você me dirá. Bom, então, seria interessante que começasse a fazer algumas perguntinhas para si mesma.

Ele vai estar ao meu lado me desejando, quando eu engordar e ficar com o peito no umbigo? (Considerando o pior). Eu consigo passar horas conversando com ele? (Não é de sexo que você vai viver!) Eu amo ele de verdade, ou só admiro o poder, o físico, a capacidade de oratória, ou algum ponto específico nele? Eu conheço como ele é dentro de casa, na intimidade? Ele é maduro o suficiente para viver sozinho e cuidar de mim se eu precisar?

Não vou te dar agora a pontuação para quantas respostas “sim” e quantas “não”, como nas revistas de adolescentes, já que a vida é uma surpresa. As combinações mais insólitas podem durar para sempre, enquanto alguns casais perfeitos não ficam muito tempo. O mais importante é começar a refletir no lado prático da vida, pois estar com alguém com quem você não tenha a menor perspectiva futura pode fazer crescer uma raiz dolorosa de se extrair quando o fim vier à tona.

Na faculdade de jornalismo, confesso que filosofia era uma aula que me trazia uma verdadeira tempestade mental. Vários raiozinhos tostando meus neurônios. Mas em uma dada aula o professor falou o seguinte: “Segundo esse filósofo as escolhas devem ser feitas com a certeza de que será a melhor. Mesmo que não seja. Pois se a escolha já for feita sabendo que vai dar errado, ela não levará ao melhor dos mundos.” Descontando a tradução da remota lembrança, aquilo ficou fixo na minha mente. Escolher levar um relacionamento com alguém que no fundo já sabemos que não dará certo, só aumentará dia após dia a dor do rompimento.

Com quantos amores se faz uma vida? Não há um cálculo preciso, mas sem amor a vida vale bem menos a pena.

Li Mendi

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